As Bonecas de Vera Lucchini

“Não sou artista, sou artífice.” – Vera Lucchini

Um artífice é um operário especializado num determinando ramo de atividade que realiza trabalhos manuais. O termo “artífice” é, frequentemente, usado como sinônimo de artesão ou artista. Outro uso comum é como sinônimo de criador, ou autor (Ele foi o artífice de tal obra ou acontecimento).

Visite: https://www.veralucchini.com/

Abri o site da Vera me deparei com esse poema

“Sou muito preparada de conflitos.”

*referência ao poema de Manoel de Barros: “O livro sobre Nada”. 

Dai pra frente entrei em uma viagem sem fim.

Vera me descobriu no Instagram, skaltiei sua pagina, rs, me deparando com sua obra e a poesia existente nela.

Nos falamos pouco, mas com um trabalho feminino, sensível e potente onde ela explicitamente descreve historias reais das mulheres com tanta poesia, me sinto próxima dela.

Vera representa a força e a dor feminina com uma excelência única.

As dores de ser mulher

Série de trabalhos composta por esculturas que abordam as dores de ser mulher a partir de intervenções e reconstruções de bonecas de porcelana.

A cada boneca que descobria vinham emoções indescritíveis cheguei a chorar algumas vezes. São histórias reais. Suas obras falam de amor, ódio, maternidade, superação, preconceitos.

Quanta poesia!

Perguntei a ela…

Quem é Vera Lucchini?

Filha do meio, mulher, esposa, mãe e autodidata que desde 2001 trabalha com uma produção própria. Comecei a enveredar pelo caminho da arte interessada inicialmente pela técnica do mosaico. 

De onde vieram essas mulheres e suas histórias, representadas na sua obra?

Há muito de mim em tudo o que eu faço e acredito que não poderia ser diferente. 

Meus trabalhos dialogam com o universo feminino, do qual faço parte. Lidam com as dores, com o machismo da sociedade, com as pressões sociais. Boa parte da produção dialoga diretamente com questões autobiográficas. Mas existem também trabalhos que se alinham às narrativas de discriminação e luta que vão além das minhas questões pessoais. Minhas bonecas são objetos de denúncia contra os diversos preconceitos de raça, sexuais e até intelectuais. Olhar com sensibilidade para estas questões abriu meu campo de pesquisa e produção. Ao mesmo tempo, também foi muito libertador.

Onde nascem as inspirações para construção das obras?

Sob o aspecto material, dos objetos que  possuo, coleto, compro e transformo: bonecas de porcelana, peças cerâmicas, utensílios domésticos, sapatos e bolsas femininas. Estes materiais são parte do meu ponto de partida. Sob o aspecto teórico, intuitivo, acredito que tenha respondido na questão anterior. É do cruzamento do material com as minhas ânsias como artífice e mulher que construo os meus trabalhos. 

Você já viveu alguma dessas histórias na vida real?

Sim. Evidentemente muitas delas. Acredito que toda mulher se identifique com pelo menos um de meus trabalhos. Todos os dias vivemos situações de conflito, ficamos, por exemplo, entre o desejo de trabalhar e a culpa de deixar um filho, ainda que temporariamente, ou a culpa por não ir trabalhar e o sentimento de se anular em prol do outro. A culpa por não conseguir fazer tudo, de ser a mãe e a profissional de excelência, a esposa e a ótima dona de casa ao mesmo tempo. É impossível atender a tudo, mas essa cobrança ainda é latente em nossa sociedade. A maternidade foi algo que vivi integralmente e intensamente, com todas as suas contradições.

Qual o seu maior desejo, como artífice que é como você se descreve.

Talvez meu maior desejo como mulher fosse ver uma sociedade mais justa, mais igualitária para as mulheres. Lutamos há muitos anos por isso, mas ainda há muito espaço para ser conquistado pela frente. Ainda não chegamos lá.

Meu trabalho é uma tentativa de tocar nestes pontos, nos pontos de dor, de injustiça, de pressão, contra essa ditadura da beleza. Se como artífice ele reverberar de alguma forma em alguém, gerando reflexão e discussão, terá ajudado de alguma maneira. Espero. 

Arte é…

O que pode ser experimentado. Um dos maiores desafios é conseguir responder a esta pergunta de maneira objetiva. Talvez, para mim, ela resida justamente neste ponto, onde posso experimentar vivências e sensações.

Felicidade é…

Igualdade, liberdade para nós mulheres.    

Obrigada por emocionar e falar por muitas de nós com sua arte.

“Noiva concebida com pecado: Eis a virtude conjugal, que expões o corpo – e o tranca à chave. O cadeado delata e ironiza a proibição.”

Suzi Frankl Sperber.

Ainda é assim?
Captu vista por ela mesma

– É pecado sonhar?

– Não, Capitu. Nunca foi.

– Então por que essa divindade nos dá golpes tão fortes de realidade e parte nossos sonhos?

– Divindade não destrói sonhos, Capitu. Somos nós que ficamos esperando, ao invés de fazer acontecer.

Dom Casmurro

Machado de Assis

Aquele Beijo
Maria da Penha

“O que me preocupa não é o grito dos violentos, mas o silêncio dos bons.”

Crueldade

Violência psicológica! Palavras matam, destroem sonhos, auto estima e qualquer tipo de relacionamento. É a forma subjetiva de agressão.

Náusea da vida, de viver e da dor. Sentimento de morte, de melancolia.

Desde o Paraíso e Adão, a serpente se enreda e proclama: Você foi, você faz, você fica!” Profa. Dra. Suzi Frankl Sperber

O pecado da cor

Intagram: @verareginalucchini

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