30 out
por Patida Mauad 0 Comentários

Ana Grisalha

Ana Rita Correia, 56 anos, artesã tecelã e produtora cultural.

Resolvi deixar os cabelos brancos a partir de 2004, quando me mudei para uma casa minimalista no interior de São Paulo e julguei melhor manter os cabelos curtos e sem tinta, por uma questão bem prática de economia de recursos como água e luz, mesmo. Tive algumas “recaídas” ao longo dos anos, muito por conta de trabalhos que exigiam outra aparência. Definitivamente estou sem tinta desde 2008, quando me afirmei em trilhar um caminho profissional mais autônomo.

Pintei os cabelos por muitos anos desde que tinha dezoito anos, em 1981. Tive cabelos de muitas cores e era muito divertido para eu modificá-los, tanto na forma quanto na cor. Trabalhando como produtora de eventos e maquiadora, o cabelo também era cartão de visitas na década de 1990. 

A partir de 2000, fiquei mais próxima da produção cultural e iniciei um cultivo de valores mais elevados, começando a estudar filosofia, o que me abriu organicamente para questionamentos sobre aparências, superfícies e futilidades. Quando deixei de pintar pela primeira vez, em 2004, estava vivendo uma imersão minimalista em busca de sustentabilidade. Foi uma longa jornada e não há um sentimento predominante neste período, mas sim um processo interno/externo de estranhamento e encontro de novas possibilidades criativas, onde o cabelo ganhou outras conotações na minha identidade em permanente construção.

Uma das histórias que mais gosto sobre cabelos grisalhos foi um encontro com uma mulher em situação de rua quando morei em Santana, entre 2008 e 2013. Ela me abordou próximo ao Metrô Carandiru e me fez varias perguntas sobre idade e meus cabelos. Por fim, me fez vários elogios, dizendo que o cabelo ficava muito bem em mim e disse estar convencida de que queria isso para a vida dela também.

As piores reações foram da minha mãe que sempre pintou e alisou o cabelo (ela é negra e está agora com 80 anos). Tentou de todas as formas me convencer de que eu ficava horrorosa, mais velha, até que, em 2016, quando voltei a morar em São Paulo, finalmente se rendeu ao cabelo curtíssimo e sem tinta que eu usava. Sem nenhuma explicação nem retratação, como é da sua natureza.

Não tenho nenhum cuidado especial, antes pelo contrário, já que um dos pilares da sustentabilidade pra mim tem sido o gasto próximo a zero com itens de cuidado pessoal. Estou firme na rota zero química sintética, buscando uma alimentação o mais saudável possível, o que me permite não depender tanto de antibactericidas em geral, como cosméticos e desodorantes de todos os tipos. 

Não tenho nenhum conselho para os cabelos alheios, até porque a autonomia de cada ser em relação ao seu corpo é para mim uma questão de princípios hoje em dia, então acho que cada um deve encontrar o seu jeito de viver em paz. O meu jeito é despejar menos poluentes nas águas do planeta e me alimentar com impacto ambiental mínimo, pois a minha responsabilidade em relação ao planeta me norteia em direção ao futuro ou ao tempo que passa, não sei direito. 

Então a minha felicidade hoje tem mais a ver com consciência da minha presença no planeta e o impacto dessa presença no todo até onde eu posso percebê-lo.

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