27 ago
por Patida Mauad 0 Comentários

Carandirú

“Literatura, no fundo, não é só saber contar uma história.” – Hector Babenco sobre o livro Carandiru Registro Real

Ouso completar…

É também sentir o que se conta!

Outubro de 1999

Sobre as treze horas vividas dentro do Carandirú.

Um dos trabalhos de moda, sim de moda, mais incrível que produzi em minha vida.

O convite veio da Revista Trip produzir o figurino para editorial de moda dentro do extinto Presídio do Carandiru. Topei na hora. Adoro desafios.

Marcelo Sommer faria a edição, digo faria pois na loucura do momento coleção da marca que levava o nome dele, o tempo foi inexistente. Falamos pouco durante o processo, ele iria no dia das fotos e não conseguiu. No fechamento ele não queria assinar, pois não havia participado do processo e sugeriu que eu assinasse todo o trabalho, edição e produção.

Não concordei e assim ficou…

Edição Marcelo Sommer com produção de figurino dessa que vos escreve.

Primeira etapa:

Casting, três horas.

Fui ao presidio com um macacão que amava, da saudosa Huis Clo.

Ao chegar, Sr Valdemar que por lá trabalhou por 17 anos, foi responsável em nos acompanhar disse:

“Menina você é maluca de vir com essa roupa?”

Olhei sem entender e perguntei…

Qual o problema com a roupa?

“Minha filha essa é a cor do uniforme do presidio, em caso de rebelião ninguém vai diferenciaria você.”

Respondi:

Não vai haver rebelião hoje, vamos em frente.

Entramos e ali começou minha apresentação aos presos de alguns dos pavilhões e explicação do porque eu estava ali.

“Moça você tá louca tenho 40 anos de pena se eu aparecer em uma revista fico mais 100.”

E eu respondia:

Tudo bem é um convite e irá participar quem quiser, por isso estou aqui hoje.

No final das três horas tempo gasto para o casting, sai feliz, fechei.

Iniciei o processo da produção contando as marcas e assessorias do trabalho e comunicando que não teria como ser responsável em caso de “perda” de peças.

Saldo final: uma papete “perdida”.

Levei desde Hering, Iodice até Calvin Klein que vesti Sr Fernando, 72 anos, nunca havia participado de um assalto o que o levou a estar preso, foi o primeiro a um banco, pois no momento da vida estava passando muitas dificuldades. Ficamos amigos, me impressionei demais com a história dele, nos correspondemos por um período de seis meses mais ou menos, através de cartas.

 O dia das fotos:

O fotógrafo João Wainer foi o convidado para fazer o registro, por ter fotografado no Carandirú de 1998 até implodir 2002, o que nos proporcionou uma tranquilidade no convívio durante o trabalho.

Três presos jovens garotos de um grupo de rappers nos acompanharam durante as fotos, eles se ofereceram e autorizados, pois tinham livre acesso aos pavilhões, topado. Eles guiavam o bonde, transporte que disponibilizaram para carregar as peças. A maioria ficou na lavanderia a cuidados da responsável uma travesti. Ela sugeriu… Pode deixar comigo, aqui estará seguro.

Ela era namorada de um traficante e com ela ninguém brincava senão… Agradeci e assim foi. Não lembro o nome dela.

Foram tantas historias vivida lá dentro não teria como contar um terço.

Escolhi duas…

Primeira:

O Sr Fernando, citado acima, fazia esculturas de anjo há pouco tempo. Convidou para visitar a cela para apresentar sua arte. Fiquei chocada ao me deparar com as obras em um tamanho de uns 50cm mais ou menos.

Questionei…

Mas você é um artista, afirmei.

Sou não.

Vou contar o que aconteceu… Sonhei com essas imagens noites seguidas, isso me intrigou. Fiquei um tempo criando uma massa que me possibilitaria experimentar fazer as imagens que sonhava. Dai surgiram essas esculturas.

Ele nunca havia feito nada ligado à arte.

Chocada! Ele também pintava umas rosas em bandejinhas de isopor.

Ganhei uma que carreguei por anos até o dia que cheguei em casa ela estava no chão o vento levou e Felix brincando arranhou estragando e  me deixando triste. Fui obrigada a descarta lá.

Segunda:

Ao passar próximo a um corredor onde portas de ferro permaneciam sempre fechadas perguntei ao responsável que nos guiava…

O que é aqui nesse corredor?

As celas dos estupradores.

Posso passar lá e voltar?

Pra que?

Respondi pra ver…

Ok, te acompanho.

Lá estava eu olhando para os olhos que me encaravam nas únicas aberturas que havia nas portas de ferro.

Olhei para cada um deles.

O que eu vi?

Ódio muito ódio.

Não sei dizer o que senti só sei que senti.

A matéria ficou demais, com texto do Fred Melo Paiva jornalista mineiro, ele sugeriu usar as cartas de fundo o que ficou incrível.

Foi numa sexta feira.

No sábado com poucas horas de sono, peguei um taxi, o corpo físico não conseguia caminhar, fui ao shopping e comprei o livro Carandiru, tinha acabado de ser lançado, queria ler logo para ver as imagens que estavam fresquinhas na minha alma.

Voltei pra casa e devorei de sábado pra domingo.

Os dias seguintes foram dias quase em claro revivendo tudo que vi, assisti e conversei lá dentro.

Eu agradeço!

Experiências únicas me interessam.

Quem sabe um dia consiga escrever e compartilhar todas as experiências vividas lá dentro, gostaria!️

 

 

 

 

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